PROJETO X
Ele não te tira do buraco.
Ele senta no chão com você.
X é o que sobra quando a pessoa desliga o personagem que usa para ser aceita.
A bandagem sobre os olhos e a boca não guarda uma identidade secreta. Ela cancela a versão pública. Não existe revelação no fim, não tem um rosto embaixo esperando a hora certa de aparecer. O que está embaixo da máscara é quem está olhando para ela.
E ele está de terno. Essa é a decisão mais importante do personagem. X não é marginal, não é monstro, não vive à margem. Ele é institucional. Ele está dentro. Ele é você na reunião, na foto de família, no jantar em que todo mundo concorda e ninguém está de acordo.
X não é um alter ego. É um lugar. E o repertório já mora nele:
Nenhuma dessas linhas fala de um personagem de ficção. Todas falam de alguém que está lendo. É um lugar onde a pessoa se reconhece e não gosta do que vê, e o desconforto não é o preço da obra, é a obra.
“Ninguém quer sentar no chão comigo.”
X toma posição. Ele afirma, acusa, recusa. O que ele nunca faz é dizer a você o que fazer da sua vida. Ele fala em primeira pessoa sobre o que carrega, não em segunda pessoa sobre o que você deveria carregar.
É a diferença entre testemunho e receita. O guru resolve a sua vida para você poder parar de pensar, e cobra por isso. Não existe curso do X, não existe mentoria do X, não existe o método do X.
Repare como as canções terminam: “eu sigo outra vez”, “enquanto eu sangro, eu sobrevivo”, “verme no topo”. Nenhuma delas termina com a coisa resolvida. Continuar não é vencer, e o repertório sabe disso.
Não foi planejado assim, mas as cinco falam de uma máscara: a que a pessoa veste para aguentar, a que os outros escrevem para ela, e a que o poder usa para parecer digno. É por isso que o personagem não tem rosto.
As próximas já estão sendo escritas.
A ferramenta mudou. A origem não.
Cada letra nasceu de alguma coisa que uma pessoa viveu, adiou, engoliu ou não teve coragem de dizer em voz alta. A máquina executou o arranjo, a voz, o timbre e a imagem. Ela não teve a insônia que gerou o verso.
E a pergunta só termina do outro lado. Ela sai de um humano, atravessa uma máquina, e vai parar em outro humano que escuta às duas da manhã e reconhece alguma coisa. As duas pontas continuam inteiramente nossas.
Se alguém achar que isso desqualifica a obra, tudo bem. A régua nunca foi a ferramenta. É o que sobra em quem escutou.
Um personagem que é todo mundo não pode ter dono.
As músicas do Projeto X podem ser interpretadas, reharmonizadas, regravadas, traduzidas, aceleradas, quebradas e respondidas. Se você quiser cantar uma delas com a sua voz, com a sua banda, no seu tom, na sua língua, pode. Não precisa pedir. Precisa creditar.
Livre: letra, melodia e harmonia. Não livre: a marca, o símbolo e as gravações oficiais. Não por posse, é que a máscara vira propaganda de qualquer coisa no dia em que ela for de todo mundo ao mesmo tempo. Qualquer um pode ser o X, ninguém pode vender o X.